![]() |
![]() |
|||||||||||
|
Neurótico. Doido. Normal. Covarde. Apaixonado. Indeciso. Perdido. Desencontrado. Introspectivo. Alucinado. Vaidoso. Atucanado. Folgado. Inexperiente. Malicioso. Vibrante. Irônico. Triste. Feliz. Quase. Impaciente. Desiludido. Pretensioso. Impossível. Amigo. Egocêntrico. Sensível. Egoísta. Ciumento. Carente. Amado. Falado. Infantil. Deprimido. Afinado. Preguiçoso. Trabalhador. Melancólico. Agressivo. Instantâneo. Varrido. Cansado. Sou puro adjetivo e não sei quem sou. Sou um clichê ambulante e admito. Mas quer saber? Eu me divirto. * Sou maníaco e depressivo. Mas uma coisa de cada vez. * A palavra é a única coisa que controlo. Às vezes, nem isso. Para ser sincero, e aqui é preciso sê-lo, quase sempre é ela quem me controla. É algo compulsivo: sinto o meu sangue borbulhar, um desejo correndo pelas minhas veias e meus dedos tremem. Então, minhas mãos e meu cérebro tornam-se um só e vou dedilhando este teclado quase sem querer. É como viver. Quer dizer, assim eu vivo. Ou mais: eu vivo assim por querer dizer. * E eu quero dizer tantas coisas. Minha memória funciona sem ordem cronológica, o tempo parece rápido demais agora que tanto já passou (e demasiadamente lento enquanto o resto não passa). O que posso dizer senão aquilo que lembro? O problema é que às vezes a vida é muito chata. Mas vamos pular estes capítulos. Vamos ao que realmente interessa. * Meu nome é Spit. Talvez esteja aí o grande problema de minha vida. Tornei-me um sobrenome. Esqueci o Bruno que sou. Mas tudo bem. Não quero ser aquele Bruno indefeso, mimado, criança que meus pais me chamam. Ser Spit é ser sonoro, exclusivo, forte. Pelo menos para os outros, o que já é grande coisa quando você é feito de vidro por dentro. Nasci aos 16. E foi Aline e Daniel quem me fizeram nascer. Ainda lembro daquele fim-de-semana lindo, louco, poético. O gosto forte de cachaça, os dedos amarelados de cigarro, os ouvidos apitando por causa do som alto. O sal no corpo de Aline. As melodias do violão de Daniel. O vento, este mesmo vento que há seis anos levantou meu cabelos e deu a volta ao mundo para agora refrescar meus lábios e me fazer sentir a dor, o choro, o gozo do nascer. * Aline seduziu-me com fórmulas matemáticas. Juro, a mulher era um gênio. Logo a palavra e o número encontravam-se todos os dias à tarde, depois da aula, ela me consolando pois eu havia levado um fora da sua melhor amiga. E quando dei por mim, aquele ombro, aquela conversa carinhosa e aquele sorriso sincero destruiram uma amizade. Eu estava apaixonado. Estava? Não posso dizer ao certo. Mas eu a quis, eu a desejei, eu a amei de alguma forma ou outra. Se é que existem formas de amar. * O beijo de Aline foi meu primeiro beijo. Ela havia colocado batom demais naquela vez. - Tem batom demais
nos seus lábios - eu disse. Daniel conheceu
Aline naquele fim-de-semana mesmo. Um ouviu muito falar do outro. Quando
estava com Daniel, sempre conversava sobre Aline. E vice-versa. Pela primeira vez
pensei no futuro. Mal dá para acreditar que estava falando dos
dias de hoje. Quase nada é como eu imaginei que fosse, como nós
imaginávamos. Existe uma coisa que nunca vamos aprender: quanto
menos expectativas criarmos, mais felizes seremos. Mas por mais inteligente
que o homem possa ser, ele nunca vai deixar de sonhar por um segundo
sequer. Areia, cerveja,
estrelas. Sala de parto. Claro que nada aconteceu. (Eu e Aline terminamos
nosso namoro um ano depois. A gente se encontrou um dia desses. Ela
estava com um namorado boa pinta, de cabelos curtos e roupa de jovem
executiva. Acho que ela não sabe que não fica bem de cabelos
curtos. Está trabalhando em um banco. Só me arrependo
de nunca ter perguntado para ela se algum dia ela teve um orgasmo comigo. Você não vai acreditar como essa história toda começou. O dinheiro contado no bolso, um pacote de balas azedinhas, a sessão das duas no Cine Vitória. Afundei-me na cadeira e, durante duas horas, vivi emoções inéditas e inesquecíveis. Ri, vibrei, torci, chorei. Quando as luzes foram acesas, e os créditos passavam na tela, descobri: a imaginação, essa danada que insiste em se esconder dentro de nossas cabeças, não tem limites. Foi nesse dia que escrevi minhas primeiras frases, na verdade um poema. O filme? Ora, era "E.T., o Extraterrestre". Anualmente, o jornal Zero Hora realizava um concurso de redações sobre o dia das mães. Era algo como "Mamãe é Um Barato", não tenho certeza. A essa altura do campeonato, toda família já sabia que existia um menino dado a escrever poeminhas. Por que não redações? Tudo bem, eu participaria. Mas do meu jeito. Subverti o regulamento e inscrevi um longo poema. Para minha surpresa e deleite dos meus pais, fiquei em segundo lugar. O prêmio foi um vale-compras em uma loja infantil. No sábado, meu pai me levou até lá. Troquei por um conjunto, bermuda e camiseta, do Tom & Jerry. O poema deve estar mofando nos arquivos do jornal. No entanto, depois do concurso cheguei à uma conclusão: não suportaria regras para escrever, nem bajulação. Meus pais começaram a andar com meus poemas na carteira. Parei imediatamente de escrever. Queria ser um escritor, não um mico de circo. Mas por que começar com esse vício maldito? Por que sentir prazer cada vez que sinto este comichão nos dedos? Se já não mais posso dizer que te amo, se minha coragem vai até onde minhas palavras são desenhadas? É isso: apenas uma forma de expressar meus sentimentos. De sentir-se menos só através de um ato solitário. Solitário demais para nós dois. Eu tinha este primo comunista, hoje um mero arquiteto e pai de família. Um dia ele me levou a uma livraria e me presenteou com um romance. Tive contato, então, com a linguagem coloquial e alguns desejos estranhos. "Feliz Ano Velho" de Marcelo Rubens Paiva mostrou-me um ano novo. Nessa mesma época, acho, minha irmã recomendou-me "O Apanhador no Campo de Centeio" de J.D. Salinger. Nunca descobri o que significavam o J e o D. Mas voltei a escrever. E, graças a deus, nunca mais parei. Aos cinco anos, preenchia minhas manhãs de sábado com idas ao centro da cidade. Naquela época não tinha tanto sono. Na antiga lancheria das Lojas Americanas, uma banana-split. Nunca comia as bananas. Graças a deus, nem sempre foi assim. Aprendi a ir até o fim nas coisas que gosto. Quer dizer, às vezes. Hoje, Pedro telefonou.
Ele às vezes tem a capacidade de me irritar com apenas uma frase,
algo bem sentimental, meio auto-penoso como "eu sei que errei,
mas pelo menos me sinto humano". Acho que é por isso que
somos tão amigos. Não é
difícil eu me lembrar de Marina. Vira e mexe e ela está
em algum anúncio de jornal, comercial de TV e, ultimamente, deu
até para aparecer em colunas sociais. Marina e Pedro ficaram
dois meses juntos, sem que eu percebesse nada. Admito minha estupidez,
mas nunca iria desconfiar da minha namorada e do meu melhor amigo. É preciso
uma porrada para acordar. Com essa história toda, pude perceber
o quanto estava sendo péssimo com a Marina. Tornei-me um pai,
um amigo, um amante às vezes, mas não era um homem, um
namorado de verdade. Briguei feio com
Pedro, mas depois de alguns meses a gente voltou a se falar. Um dia
ele contou tudo para mim (até então eu não imaginava
que fosse dois meses) e partir daí, não me pergunte, por
quê, ficamos mais e melhores amigos. No início
de nosso namoro, ajudei Luisa a escrever sua monografia. Adorei tanto
que até rabisquei um ensaio, o qual intitulei "Sterografia".
Engana-se quem diz
que o que impulsiona meu viver é este meu fraco coração
de quase vinte e dois anos de idade. De que valeria o oxigênio
em minhas veias se não mais pudesse suspirar de amor? Sim, senhoras
e senhores da banca, amo- logo existo.
A primeira coisa
que escutei quando decidi ser publicitário e trabalhar na área
de criação, mais especificamente redação,
foi o quanto era necessário ter talento. "Só os bons
sobrevivem", diziam. Pronto: nem havia passado no vestibular e
já sabia que era dispensável cursar uma faculdade de Publicidade
e Propaganda. Porque não pode-se ensinar alguém a ter
talento. Amor & paixão
pela propaganda na faculdade só vi nas palestras de profissionais
convidados para falar um pouco de seus clientes, um pouco do tema proposto
e muito deles mesmos. Tudo bem. Ouvi-los fazia um bem danado. Queria
trabalhar logo. Durante meu estágio
pela RBS TV, a minha verdadeira escola, pude desfrutar de quinze minutos
ao lado de um dos melhores publicitários e redatores da atualidade,
Nizan Guanaes. Zé Maurício (aliás, essa é
outra coisa que me fascina na profissão, poder falar de igual
para igual com diretores e executivos com o dobro de minha idade e,
o que é legal, ser escutado), na época o diretor do departamento
comercial e marketing da emissora, convidou-me para ir até sua
sala e tomar um cafézinho com o senhor DM9. Quando fomos apresentados
ele disse: Lembro do primeiro
anúncio que me deu orgulho. Foi realmente como se estivesse fazendo
um gol. Ainda acho sensacional porque ele é pura paixão.
A RBS TV estava informatizando sua área de telejornalismo. O
equipamento era de última geração. Criei uma campanha
falando do assunto, das vantagens para a comunidade, da preocupação
da emissora com a notícia. Mas achei que algo estava faltando.
Por isso, escrevi um anúncio dando adeus às máquinas
de escrever. O título era "Nós que amávamos
tanto bater em você.". E depois dizem que
o amor não é cego. Confesso que ultimamente não tenho criado muita coisa. Depois de nove meses fazendo de tudo em uma pequena agência, estou descansando. E o que é melhor: trabalhando apaixonado, pela propaganda que às vezes faço e pela mulher que fica à minha direita layoutando anúncios, folhetos, cartazes. Amo o que faço e amo com quem faço.) Não tenho
certeza se o fato do homem ser racional seja uma virtude, que o faça
ser superior aos outros animais. Principalmente agora que vejo o quanto
é difícil viver permanentemente relacionando-se com os
outros- amigos, família, colegas de trabalho, namorada. Estou cansado. Queria dizer mais. |
|||||||||||

