-Quero Ver-te, Meu Amor

-Por Que os Anjos Choram ao Me Ver?

-Quando Eu Ficar Velhinho Quero Ser Roadie do Meu Filho

-Vinte e Poucos Anos

-Enquanto Isso Nós Conversamos com os Dedos

-Fastfood, Lowlove
 








   
 

- Segunda-feira

Minha terapeuta não concorda, mas a razão de todos meus problemas está em dois fatos isolados no início dos anos 80. Você, como ela, pode achar a maior bobagem do mundo o que vou dizer agora. A única diferença é que aquela balzaquiana de pernas bonitas é paga para me ouvir, enquanto aqui quem detém o poder é você. Sim, você. Única e exclusivamente você. Se quiser parar por aqui, tudo bem, ainda dá tempo de colocar o livro de volta na prateleira, e caso você teve o azar de ter ganho como presente, ou até comprá-lo no escuro, pode trocá-lo por algo melhor. Mas dane-se. Vou contar assim mesmo. O primeiro fato é um comercial de sabonete que vi com a Michelle Pfeiffer quando tinha mais ou menos seis anos de idade. Eu, no auge da minha ingenuidade infantil, fiquei lá estático à frente do aparelho de televisão. E, de repente, levei um susto. Não sei se todos os homens lembram de sua primeira ereção para valer, mas eu lembro. E a minha foi naquele dia, olhando um comercial de sabonete na televisão, completamente atormentado pelas curvas da Michelle Pfeiffer. Isto foi determinante na minha vida porque, tenho certeza, a partir daquele dia fiquei escravo da sensualidade feminina. É fútil, eu sei, mas não posso deixar de olhar para trás cada vez que vejo uma mulher bonita passando por mim. Às vezes tenho até vontade de sair correndo só para fazer um pedido de casamento. E, a medida que o tempo passou, fui prestando atenção em outros detalhes. Hoje, às véspera de completar trinta anos de idade, já posso afirmar o óbvio: uma mulher não precisa ser necessariamente bonita para ser atraente. Tem que ter aquele algo mais. O que torna as coisas ainda mais difíceis, já que todas, pelo menos para mim, possuem algo mais. Ou é o modo como falam, ou é o jeito que afastam os cabelos do rosto, ou são as pequenas manias que fazem você sorrir e se irritar ao mesmo tempo. Veja bem, não queria que as coisas fossem diferentes. Mas com toda certeza a minha vida seria bem mais fácil sem a Michelle Pfeiffer naquele maldito comercial de sabonete.

O segundo fato tem até data: 8 de dezembro de 1980. Acho que nunca na minha vida vi meus irmãos chorarem tanto. Aliás, todo mundo chorava naquele dia. Olhando pela televisão, parecia o dia mundial do choro. E não paravam de mostrar um cara cabeludo com seus óculos escuros sempre acompanhado de uma japonesa mais feia que o diabo. E também ouvi muito suas músicas naquele dia. Até então nunca havia me emocionado com músicas. Mas ali foi diferente. Provavelmente foi ali, ouvindo exaustivamente toda a retrospectiva de John Lennon desde os Beatles, que eu comecei a gostar de música. E, então, o pior aconteceu: encontrei a minha vocação. A partir daquele dia quente de dezembro, decidi que seria músico. Implorei para meus pais me matricularem em uma aula de piano, o que minha mãe definiu como "maravilhoso, meu filho vai ser um artista" enquanto meu pai resmungava com uma cara explícita de reprovação. Anos mais tarde, quando aos vinte anos pedi dinheiro emprestado para meu pai, entendi o que aqueles resmungos significavam. Meu pai já sabia que obsessivo do jeito que seu filho era, daqueles que quase morriam ao perceber que havia perdido um de seus bonecos Playmobil, ele só poderia levar muito a sério aquela brincadeira de ser músico e nunca teria um emprego sério. De qualquer modo, fui matriculado em uma aula de piano e logo decobri que eu tinha talento para a coisa. E, nossa, como eu estudei. Tudo bem, a verdade é que quando descobri os prazeres do rock, parei de pensar em ser maestro, joguei fora todas as minhas partituras e montei a primeira de centenas de bandas que viriam no decorrer dos anos. Sim, meu pai tinha razão. Talvez eu fosse mais feliz se tivesse escolhido uma profissão, digamos assim, mais normal. E provavelmente não seria este falido que sou. Mas quer saber? Todos os dias eu coloco um disco do John Lennon no som e agradeço de joelhos por ter encontrado algo que me deixa tão cheio de vida: a música.

E naquela segunda-feira, como sempre acontece em minha vida, estas duas obsessões mostraram seus sintomas ao mesmo tempo. Eram seis horas da manhã e, apesar da noite anterior ter sido sensacional em termos de sexo, acordei desesperado. Minha vida profissional estava um caos. Três anos antes eu decidira terminar com uma banda que consumira cinco anos de minha vida com uma sucessão de fracassos e shows nas mais sujas espeluncas que você poderia imaginar. Foi então que aceitei um emprego em uma produtora de jingles publicitários. Nunca me perdoei por isso, sempre achei que estava me vendendo, mas, porra, haviam as malditas contas a pagar. Além do mais, todo ano sempre tem algo novo dos Beatles sendo lançado, o que faz do dinheiro algo realmente necessário para mim. E, apesar de toda minha má vontade, devo confessar que sou muito bom nesta coisa de criar jingles. Tão bom que, depois de três anos, meu chefe me convidou para ser seu sócio. E é aí que está o problema, é aí que está o caos. Eu havia prometido a mim mesmo que logo largaria essa vida e voltaria a me dedicar em tempo integral à música. E não seria apenas uma banda. Sempre tive o sonho de ensinar, de tentar passar um pouco de toda minha paixão às crianças, aos jovens que estão começando a tocar um instrumento. Seria a "Universidade do Rock", "Faculdade da Música Pop" ou qualquer coisa parecida. E naquela segunda-feira, eu acordei com a certeza de que deveria fazer um empréstimo no banco e realizar meu sonho. Mas, naquela segunda-feira, eu também precisava dizer ao meu chefe se seria ou não seu sócio. Estava confuso, atormentado. De um lado, eu tinha o dinheiro e, quem sabe, uma viagem a Liverpool todos os anos. Do outro, eu tinha a possibilidade de ensinar todas aquelas crianças cujos pais resmungavam ao saber que elas desejavam ser músicos.

Perdido, virei para o lado em busca de paz. Mas algo aconteceu. Algo terrível aconteceu naquela manhã. Pela primeira vez depois de três meses de um relacionamento tão perfeito de dar enjôo aos menos chegados a uma história água-com-açúcar, vi outra pessoa entre Aline, que dormia de costas para mim, e eu. Normal, pensei. Afinal de contas, todo mundo lembra da ex-namorada de vez em quando, ainda mais quando você emenda um namoro no outro. Tentei pensar na minha escola de música. Até levantei a hipótese de ser sócio da produtora de jingles e dar aulas ao mesmo tempo. Não era má idéia. O único problema era que criar jingles não me fazia feliz, assim como Aline não me fazia feliz. Como? Eu disse isso? É horrível admitir, eu sei, mas às sete horas daquela segunda-feira tudo o que queria era ter Gabriela ao meu lado. Sim, a Gabriela que tanto magoeei ao trocá-la por Aline, a mesma que estava ali dormindo, como se nada estivesse acontecendo. Comecei a passar mal. E, antes que começasse a fazer comparações, o que sempre achei injusto demais, levantei da cama.

Vesti uma roupa qualquer. Cuidando para não fazer barulho, caminhei até a cozinha. Fiz um café. Acendi um cigarro. E sentei ao meu piano. Então, olhei para aquele apartamento minúsculo, tipo quarto-e-sala, que ficava menor ainda com meu piano Fender Rhodes e todos aqueles discos e livros sobre os Beatles e toda aquela bagunça que um dia eu prometera a Gabriela que iria arrumar. Comecei a ficar deprimido e com uma sensação insuportável de culpa. Por que, afinal de contas, eu deliberadamente decidi magoar uma das pessoas mais especiais que conheci em minha vida? Tentando encontrar alguma resposta, sem querer apertei em uma tecla do piano.

- Você acordou cedo - Aline falou quase sussurando. - Aconteceu alguma coisa?

Gabriela gostava que eu tocasse "Sexy Sadie" para ela acordar, pensei. O negócio estava ficando sério. Só me restavam duas alternativas: mentir ou fugir. Escolhi as duas. Disse a Aline que precisava terminar um jingle para uma reunião no final da manhã, dei um beijo em seu rosto e saí de casa.

*

Eu me apaixonei por Aline no momento em que vi seus ombros. Senti como se estivesse vendo aquele comercial de sabonete com a Michelle Pfeffeir. De repente, eu era um garoto de seis anos de idade, uma criança assustada e, ao mesmo tempo, maravilhada com a reviravolta que aqueles ombros estavam fazendo dentro de mim. Eu já me apaixonara por olhos, mãos, cabelos, rostos, bundas, pernas e, no caso de Gabriela, minha namorada na época, costas. Mas ali, em uma festa de lançamento do disco de alguns amigos meus, era a primeira vez que desejava desesperadamente beijar os ombros de uma mulher. E, por mais que amasse Gabriela e a respeitasse do fundo do meu coração, por mais que minha consciência dizia que nunca, nunca, deveria magoá-la, minha decisão já havia sido tomada. Não, não terminei meu namoro de dois anos e, é bom que eu diga aqui, de futuro, porque sou um sacana, ou porque as coisas estavam ruim entre nós. Aliás, não fui eu quem decidi. Quem decidiu largar tudo foi esta parte de mim sem cérebro que nasceu no dia em que vi a Michelle Pfeffeir na televisão. As mulheres insistem em acreditar que os homens não prestam porque pensam com, sei lá, a parte debaixo do corpo, mas esquecem que a parte debaixo do corpo não pensa, age. Eu não sou um insensível por causa disso. Nem um filho-da-puta. Ok, talvez um pouco filho-da-puta. Mas quando você cresce sendo dependente do amor feminino desde que é um mero feto, não há como evitar. Você simplesmente perde a noção das coisas, chuta o balde e corre atrás da dona dos ombros mais lindos que já surgiram na face da Terra.

Mas naquela segunda-feira, o meu cérebro começou a funcionar. Não era apenas remorso, era saudades. Era como se uma parte de mim tivesse ficado com Gabriela. E eu sabia que parte era. Somente Gabriela conseguia entender todo este meu turbilhão de angústias em relação aos meus projetos pessoais. Ela sempre me incentivara a abandonar a vida de criador de jingles, até defendia esta idéia nos conturbados almoços de domingo com minha família. E a única vez que toquei no assunto com Aline, ela disse "pensa melhor", "cuidado" e "cresce", não necessariamente nesta ordem.

Sem saber o que fazer e me sentindo o cara mais confuso do bairro, caminhei sem destino. Era uma manhã quente, e às oito horas já estava suando. Parei em uma padaria para comprar um Coca-Cola e, de repente, ouvi uma melodia conhecida. Caralho, o rádio estava tocando um jingle estúpido que eu havia criado para uma marca de sabonetes. Imagina, na adolescência eu me sentia o máximo por escrever letras politizadas, depois, aos vinte anos, mergulhei em letras confessionais sobre amor, perda, confusão. Nunca me senti um grande poeta, mas pelos menos eu escrevia coisas mais decentes do que uma letra de sabonete cujo refrão dizia "deixa a espuma e o sabão, lavar seu coração". Ridículo. Idiota. E estava ali, tocando em uma das rádios de maior audiência da cidade. Ouvir aquele jingle sem sentido me deprimiu ainda mais, e saí da padaria com a certeza de que iria naquele momento mesmo pedir demissão.

Foi então que algo aconteceu. Totalmente concentrado em abrir a lata de Coca-Cola sem derramar uma gota na minha camiseta com a capa do "Abbey Road", não prestei atenção ao atravessar a rua. E, quando dei por mim, estava dentro de um carro cheirando à maconha e com Bob Marley no som.

*

Durante dois meses da minha vida eu quis trocar meu piano e minha guitarra por uma prancha de surf. Eu tinha quatorze anos de idade, e naquela época os surfistas sempre ficavam com as meninas mais bonitas do colégio. Acho que as coisas não mudaram muito desde então, porque cada vez que olho uma revista de surf só vejo mulheres com corpos perfeitos, cabelos perfeitos, bronzeados perfeitos. Como é que eles conseguem? Por que, afinal de contas, um cara que passa o dia inteiro pegando onda exerce tanta atração? E a droga é que a maioria dos surfistas é de uma beleza inegável. Se hoje isso ainda me intriga, imagina quando eu era um adolescente doido para desamarrar o laço de um biquíni. Então, decidi que seria um surfista. Nem preciso dizer que foi um desastre. Pior: foi um dos momentos mais constrangedores da minha vida.

Até hoje tenho vergonha de falar sobre isso. Volta e meia algum irmão meu lembra do assunto, e às vezes meu pai ainda reclama do dinheiro que gastou para comprar uma prancha triquilha que foi usada no máximo dez vezes. Na verdade, só tentei (veja bem, tentei) surfar três vezes. E me saí tão mal, engoli tanta água e fui obrigado a ouvir tantas gargalhas que prometi a mim mesmo que nunca mais iria fazer aquilo. Talvez tenha sido um ato excessivamente infantil desistir logo no início, mas eu queria sentir os resultados logo, estava doido para ser rodeado por meninas de cangas e tornozeleiras.

Aquele verão seria o pior verão da minha vida se em uma noite eu não estivesse com meu violão à beira da praia. Envergonhado, humilhado e deprimido, toquei todas as músicas dos Beatles (e desde então os Beatles têm sido meu Prozac diário) que sabia. E eu acho que eu sabia todas. De repente, uma menina sentou ao meu lado. Ela usava a roupa típica da surfgirl: moletom com a estampa de uma marca de surfwear, calção pequeno o suficiente para me fazer errar as notas de "She Loves You" e sandálias Havaianas. Antes que ela dissesse alguma coisa, já estava apaixonado. Ela se apresentou, Claudinha era seu nome, perguntou se eu era surfista. Eu respondi que não e ela disse que realmente nunca tinha me visto na praia. Falei que não passava o verão ali, que meus pais haviam alugado uma casa. E, então, Claudinha pediu para eu tocar uma música do Bob Marley. Suei frio. Logo Bob Marley? Eu só conhecia Bob Marley de um disco do meu irmão e ouvia apenas "Stir It Up" e olhe lá. Não lembrava direito as notas, muito menos a letra, mas não queria desistir como desistira de surfar. A música era meu território, mesmo se eu não soubesse como tocar "Stir It Up" tinha certeza que seria, no mínimo, ok. Pedi para Claudinha cantar comigo e… bom, acabei de contar para você como aconteceu meu primeiro beijo.

E era em Claudinha e sua voz desafinada, Claudinha que nem possuía uma beleza tão perfeita assim, Claudinha e seus cabelos da cor do sol, Claudinha que ficou comigo exatos cinco dias, era em Claudinha que estava pensando quando acordei ao som de "Stir It Up". Minha cabeça doía, não sentia muito bem a perna direita e demorou alguns segundos para me dar conta que eu havia sido atropelado. E tudo indicava que o motorista era aquele jovem de cabelos compridos, sujos e com um forte cheiro de maconha.

- Bixo, acho que você quebrou a perna - disse o motorista quando percebeu que eu estava acordado.

Levantei no banco de trás e quase bati a cabeça na prancha que ocupava boa parte do espaço do carro. Imediatamente coloquei minhas mãos na perna direita. Sentia um pouco de dor, mas não havia sinal de fratura.

- Tô bem - falei. - Pode me dizer o que aconteceu?
- Tá bem nada, bixo. Vou te levar pro pronto-socorro.
- Já disse que tá tudo ok.
- Cara, tô dizendo que acertei em cheio na tua perna. Tá certo que eu tava devagar, mas acho que não custa nada a gente ir pro hospital.

Ele tinha razão. Era melhor ir ao pronto-socorro para ter certeza se estava tudo no lugar.

- Também, você nem olhou pro lado quando atravessou - o motorista disse com um certo tom de repreensão. Ele não deveria ter mais de vinte anos e, com certeza, estava chapado. Um pedestre mentalmente abalado e um motorista chapado. Que bela combinação, hein? - Onde é que você tava com a cabeça?

Boa pergunta, pensei. Uma pena que minha cabeça estava em pensamentos angustiantes sobre mulheres e música. O ideal seria se aquele atropelamento tivesse me deixado com amnésia. Ou que eu pudesse passar o dia todo pensando apenas em Claudinha e Bob Marley, era sempre gostoso pensar naqueles cinco dias cheios de descobertas e nenhum coração quebrado (eu e Claudinha tivemos uma separação sem lágrimas porque ela iria passar a outra metada das férias com o pai, trocamos telefones, mas nunca mais nos falamos desde então). No entanto, minha cabeça estava em um mundo estranho e confuso. E, como se eu já não tivesse problemas demais, logo me dei conta que minha camiseta com a estampa da capa do "Abbey Road" estava rasgada. Fiquei ali, ouvindo Bob Marley cantar "One Love" e me perguntando o que mais poderia acontecer de pior neste meu início de semana.

*

Um dia Gabriela acordou e perguntou se eu já pensara em ter filhos. Minha primeira reação foi imaginar que ela estava grávida. Sempre fui muito paranóico em relação a isso. Não que eu não quisesse ser pai um dia. Apenas gostaria que fosse tudo planejado. Ou, quem sabe, o problema foram os pequenos sustos que levei durante a adolescência. De qualquer modo, respondi que sim, claro que pensava em ter filhos. Gabriela disse que era para eu não me assustar, que ela não queria ficar grávida agora e tal. Sorri aliviado, e falei que o problema é que não me sentia maduro o suficiente para ter filhos. Que acreditava que um cara que vivia imaginando uma volta dos Beatles, com John Lennon ressuscitado e tudo, nunca poderia ser um bom pai. E, então, Gabriela falou que, na verdade, eu não queria ter filhos porque sempre quis ser a única criança de meus relacionamentos. Desmascarado, só me restou fazer uma piada e dizer que nenhuma mulher iria querer ter um filho comigo porque eu iria batizá-lo de Lennon.

Por isso, não é de se espantar que fiquei de boca aberta ao saber que o motorista-assassino-surfista se chamava Lennon.

- Lennon? - indaguei no estacionamento do pronto-socorro.
- Qual é o problema, bixo? - ele falou enquanto observava eu caminhar. - Lennon de John Lennon. Este cabeludo que tá aí na foto da tua camiseta.

Aquele excesso de "bixo" estava começando a me incomodar. Era uma cena muito bizarra: um surfista com o nome de Lennon e falando como se fosse um hippie.

- Bixo, - Lennon disse - acho que você tá bom mesmo.

E eu estava. Não sentia mais nenhuma dor.

- Ih, talvez seja melhor deixar esta história de pronto-socorro de lado, né bixo? Os caras vão me fazer perguntas e, imagina, de repente até sentem o cheiro da erva.

Sorri para Lennon como se concordasse com ele e dei alguns saltos para ter certeza que estava tudo ok comigo.

- Certo, Lennon, - eu disse - nada de pronto-socorro.
- Isso, bixo, nada de pronto-socorro.
- Então?
- Então o quê?
- A gente se despede aqui?
- Sei lá, velho, eu tava indo pra praia, não tenho nada pra fazer, de repente eu posso fazer algo por você. Sabe como é que é, pra pedir desculpas pelo acidente.

Comecei a me simpatizar por ele. Fugia do estereótipo de surfistas que conheci na época da faculdade de música. Como o prédio ao lado era o de direito, volta e meia acabava batendo papo com um futuro advogado todo engomado que nos finais de semana pegava a estrada com sua perua (por que diabos todo surfista tem uma perua?) para ir à praia. Lennon fazia o tipo de surfista 24 horas, um cara cuja única preocupação era estar no mar. E aquela sensação de liberdade, de domínio de poder fazer o que lhe dava prazer, estava me contagiando. Afinal de contas, tudo o que mais queria naquele momento era ter aquela mesma tranqüilidade.

- Obrigado, Lennon - agradeci. - Mas acho que não há nada que você possa fazer por mim.

Ele parecia inconsolado. Acho que também estava gostando de mim e, além disso, era claro que eu não estava muito bem espiritualmente. Dava para ver nos meus olhos.

- Tive uma idéia, bixo - Lennon falou sorrindo. - O que você acha da gente fumar um juntos?

Eu precisava ir até a produtora e pedir demissão. Irresponsabilidade era algo que não existia no meu vocabulário (pelo menos no profissional, porque emocionalmente eu era o maior irresponsável que já conheci). Mas então pensei que, ora, eu iria pedir demissão…

- Ótima idéia - eu disse enquanto fechava a porta do carro, que era, lógico, uma perua.

*

Meu affair com a maconha durou exatamente três anos, mais especificamente todo o período do meu segundo grau no colégio. Começou como começa com a maioria dos adolescentes, com um misto de curiosidade e flerte pelo proibido. E, claro, fã de Beatles do jeito que sempre fui, não poderia deixar de experimentar um dos grandes amores dos Fab Four. No início, era tudo muito divertido. Talvez a maconha tenha me proporcionado as mais incontroláveis gargalhadas de toda minha vida. Mas na minha formatura do segundo grau exagerei na dose. E fiquei tão doido, mas tão doido que comecei a desejar voltar ao normal. Se você fuma ou já fumou maconha sabe que isso é a pior que coisa que pode acontecer. Porque, no momento que o barato está lhe incomodando, a paranóia aparece. E, nossa, eu estava muito paranóico naquela noite. Tinha a sensação que ficaria chapado para sempre, que não teria mais controle dos meus atos, que todas as pessoas na festa estavam me observando. Cheguei em casa vivo, mas ainda doidão e, quando acordei melhor na tarde seguinte, jurei que nunca mais iria fumar um baseado. E não fumei, o que explica minha bobeira total depois do primeiro pega ao lado de Lennon.

Eu e ele fomos para uma praça relativamente vazia da cidade, e no final da manhã, sentados no capô de seu carro, já conversávamos como se fôssemos amigos há muito tempo.

- Lennon não é nome de surfista.
- Mas o Lennon também curtia um bom baseado.
- E seus pais também, imagino.
- Bixo, eles são loucos pelos Beatles.
- Também sou.
- Tô ligado, tô ligado.
- Velho, você nem me disse seu nome.
- João.
- João, tô ligado, tô ligado, bixo.
- Tipo assim João Lennon.

Por algumas horas nossa conversa foi mais ou menos assim: totalmente sem sentido. Não falávamos nada com nada e, de repente, caíamos em uma gargalhada profunda. Até que ele quis saber um pouco mais sobre minha vida. E, para minha surpresa, Lennon ficou sinceramente preocupado.

- Deixa ver se eu entendi, - ele recapitulou - você tá querendo largar o trampo e, ao mesmo tempo, tá meio arrependido com a troca que fez.
- Mais ou menos isso, Lennon. Mas, porra, troca é um termo horrível…
- Mas foi exatamente o que você fez, oras.
- Sei, sei…
- Bixo, não sou um especialista no assunto, namoro a mesma gata desde os dezessete, mas acho que é aí que tá o problema.
- Que problema?
- Sei não, velho, acho que tô me metendo demais na tua vida.

Sim, ele estava se metendo demais na minha vida. Mas, naquele momento, Lennon era a única pessoa com quem gostaria de conversar sobre o assunto. Se eu pegasse o telefone e ligasse para algum amigo, além de estar repetindo um assunto que surgia de dois em dois anos, ouviria apenas um "eu sabia, eu avisei". E aquele surfista de vinte anos não me conhecia, não sabia de todas as confusões amorosas pelas quais eu passara, sua opinião era muito importante para mim.

- Fala, Lennon - pedi. - Onde tá o problema?
- O problema é que você tá lidando com suas paixões como se fossem mercadorias, como se pudesse trocar, tá ligado?

Eu estava ligado. E Lennon tinha toda razão. Comecei a ficar deprimido, a maconha me deixou tranqüilo, mais feliz, mas havia uma tristeza em mim que nenhum baseado poderia tirar. Tive vontade de fazer algo diferente. Tive vontade de sair da cidade. Tive vontade de, acredite se quiser, surfar novamente.

*

Aline trabalhava em uma produtora de shows. Talvez por isso ela sempre me olhava com descrédito quando eu dizia que queria largar tudo para viver de música. Ela sabia mais do que ninguém da dificuldade de sobreviver no mercado. Eu também sabia, acho. Mas acreditava que possuía um certo talento, talento este que Aline ignorava porque pensava que minha predileção por rock não iria dar em nada em um país mais preocupado com samba, sertanejo e sub-reggaes. No fundo, ela estava me fazendo um bem ao me alertar e tudo mais, mas eu não podia deixar de sentir um pouco de meus pais em tudo que Aline falava.

Mas, se eu estava prestes a ir para a praia com Lennon, um estudante de odontologia (isso mesmo: odontologia!) que ganhava a vida fazendo pranchas de surf, o mínimo que eu deveria fazer era ligar para ela. Mesmo se fosse para ouvir um sermão.

- Você o quê?
- Vou ficar fora uns dias.
- Como assim ficar fora?
- Ficar fora, ué. Quero pensar na vida.
- Pensar na vida?
- É, pensar.
- Tem algo a ver com a gente?
- Sim. Não. Quero dizer, mais ou menos.

Ali, do telefone público, eu conseguia vê-la gesticulando com as mãos como se estivesse cortando o ar.

- Como assim mais ou menos? Quer dizer que você simplesmente decidiu que há algo errado com a gente e resolve sumir? Pra pensar? Pensar no quê? Por que a gente não conversa? Vai pra onde?
- Olha, desculpe, mas eu preciso mesmo ficar sozinho. Não fique preocupada. Eu ligo.
- E o trabalho?
- Será que você pode ligar pra lá e avisar que não vou aparecer nos próximos dias?

Ela, lógico, desligou o telefone na minha cara. Além de parecer totalmente confuso e, por conseqüência deixá-la confusa também, eu tinha a cara de pau de pedir um favor daqueles. Pensei em ligar de novo e me desculpar. Mas eu queria paz, entende? E falar novamente com Aline iria me angustiar mais ainda. Ou seja, não liguei de novo. Em vez disso, entrei na perua de Lennon, apertei o cinto de segurança, deixei a guitarra preguiçosa de Bob Marley me contagiar e dormi até chegar na praia.

*

Tudo na vida merece uma segunda chance. Lembro que depois de três anos estudando piano, resolvi que iria aprender a tocar guitarra. Eu queria ter uma banda e, mais do que isso, desejava ser o frontman. E não me agradava o fato de ser uma espécie de Elton John, sentado no piano e cantando. Já estava deixando de lado a música clássica, apesar de todo meu amor por Rachmaninoff. Meu sonho era empunhar uma guitarra e pular, fazer aquele helicóptero com os braços (se você já viu algum show do The Who e conhece o estilo de Pete Townsend sabe do que estou falando), saltar com as pernas abertas. Mas, depois de três meses de aula, não conseguia de jeito algum fazer uma pestana (simplificando: um acorde onde é preciso segurar todas cordas com o dedo indicador). Não tinha força, jeito, sei lá. Comecei a ficar irritado comigo mesmo, decepcionado e, em um ato infantil que se repetiria diversas vezes nos próximos vinte anos, decidi que iria parar com aquele história de guitarra e me contentar com o piano.

Mas um dia meu pai entrou no meu quarto e viu minha guitarra jogada no canto, ao lado dos brinquedos que eu enjoara. Lembro como se fosse hoje, porque aquela foi a única vez que meu pai me dera apoio em relação à música. Ele perguntou como estava o colégio, se eu já arranjara uma namoradinha e, segurando minha guitarra, contou que quando era adolescente seu sonho era ser goleiro mas que, por mais que tentasse, nunca conseguira cobrar um tiro de meta. Achei aquilo ridículo.

- Mas você tinha reflexos, quero dizer, sabia como defender? - perguntei.
- E como - respondeu meu pai.
- Putz, pai, tiro de meta é apenas um detalhe…
- Eu sei. Poderia ter treinado, mas simplesmente desisti. E apenas ficava vendo meus amigos jogar futebol com um sentimento horrível… Com uma vontade imensa de estar ali no campo.
- Mas o senhor poderia ter treinado, o senhor tinha talento…
- Só que desisti, né?
- Que droga.
- É, é uma droga, João. E até hoje me arrependo por todas as peladas que perdi por causa do meu medo… - E depois ele me entregou minha guitarra e disse quase em tom de ordem: - Você tem talento, vê se não desiste também.

E, então, decidi dar mais uma chance à guitarra. Sofri, mas logo consegui fazer as malditas pestanas e, alguns meses depois, já estava pensando em montar uma banda de heavy metal.

Naquela tarde de segunda-feira, enquanto Lennon tentava me ensinar como ficar em pé em uma prancha de surf, lembrei desta conversa com meu pai. De como a gente desiste das coisas sem ao menos tentar. Quase aconteceu com a guitarra, mas havia acontecido com o surf, com minha vontade de me dedicar 24 horas à música e também com Gabriela. Enquanto eu e Lennon nos divertíamos no mar, me dei conta que meu relacionamento com Gabriela sempre foi maravilhoso nos dois anos que estivemos juntos. Mas na época que conheci Aline, eu estava insatisfeito. Parecia que tudo estava ótimo, porém já não havia mais emoção, era como se nada mais pudesse acontecer na nossa vida. Por isso, mergulhei de corpo e alma no que os ombros de Aline poderiam me dar. Só que, puxa, tudo estava estável demais entre eu e Gabriela porque eu não queria dar mais um passo, porque eu não queria dar uma chance para que as coisas acontecessem de verdade, entende?

Talvez fosse tarde demais, mas no início da noite, quando eu consegui pegar o primeiro tubo da minha vida de surfista, cheguei à conclusão que deveria procurar Gabriela.

Não que Gabriela precisasse de mais uma chance.

Eu é que precisava.

E, além do mais, eu já não tinha mais nada a perder.