-Quero Ver-te, Meu Amor

-Por Que os Anjos Choram ao Me Ver?

-Quando Eu Ficar Velhinho Quero Ser Roadie do Meu Filho

-Vinte e Poucos Anos

-Enquanto Isso Nós Conversamos com os Dedos

-Lado B
 








   
 

É a quarta vez nesta semana que Pedro come um x-calabresa com cebola e pouca maionese. Há outras razões além da fome das oito horas da noite: assistir esta menina, de uniforme branco, preparando seu sanduíche é algo apaixonante. Na segunda-feira, ele apareceu com a namorada sem graça e chata que odeia gordura, mostarda e ervilhas. Agora, está a sós com sua princesa de cabelos presos e touca, ela é toda sua. Com calma e experiência, como se já tivesse decorado todos os passos para fazer o calabresa, ela move-se dentro do minúsculo trailer. Corta o pão, passa maionese, catchup, mostarda, coloca ervilha e um pedaço de alface. Esmaga a calabresa com sua espátula, frita a cebola, polvilha um tempero cujos ingredientes fazem parte de um segredo guardado em família. Tem o luxo de até prestar atenção no noticiário enquanto espera o pão prensar. Enfim, ela diz:

- Um x-calabresa com cebola e pouca maionese...
Pedro levanta-se, pega seu lanche e não pode resistir:
- Uma coca-cola e seu nome, por favor.
Ela parece não entender.
- Como? - pergunta.
Sem jeito, ele responde:
- Uma coca-cola... e seu nome.
A menina sorri, não deve ter mais de vinte anos, limpa suas mãos no avental, suas unhas estão pintadas de um vermelho claro, combinando com o batom. Quase num sussurro ela fala:
- Luisa.
Pedro devora seu x-calabresa com cebola e pouca maionese em minutos. Paga e ao sair despede-se de Luisa. Gostaria de ter mais fome.

Luisa. Pedro mal consegue dormir nesta noite. Em seus pensamentos parece existir apenas uma palavra- Luisa, Luisa, Luisa. Fecha os olhos e se vê protagonizando um beijo. Dorme sem querer. E acorda com fome, muita fome.

- Sei que vai me achar um lunático, um idiota, que vai me odiar para o resto de minha vida. Mas não dá mais. Acabou. Quer dizer, ambos sabemos que as coisas não andam muito bem entre nós. Sei lá, se pelo menos você gostasse de calabresa ou preparasse um x para mim. Não. Esquece. Isso é ridículo. Vamos embora daqui. Este restaurante que você freqüenta me dá náuseas. Como é que alguém pode comer alpiste? Sim, porque isso é alpiste e grama. Não tem tempero, não tem gosto. Não tem gordura. Você nem ao menos bebe um pouco de álcool. Desculpa, não tenho nada contra você. Eu gosto de você. Sei que pareço um louco mas está tudo terminado. Não, não diga nada. Eu sei que não estou bem. Só que também sei o que vai me deixar melhor. E não é essa comida natural. Ah, não.

Pedro aproxima-se do trailer e imediatamente Luisa arruma os fios de cabelo que a touca não consegue cobrir. Ele percebe e não pode esconder um sorriso.

- Um x-calabresa com cebola e pouca maionese? - ela pergunta.
- Não - ele responde enquanto encosta-se no balcão de ferro.- A não ser que você queira jantar um x comigo.
- X? - Luisa olha para a grelha. - Bem capaz.
- Foi o que pensei.
- À uma eu fecho. É só bater na porta.

- Desde a primeira vez que você foi comer lá no trailer, eu soube.
- Eu nunca tive tanta fome assim.
- Pensei que estas coisas só acontecessem em filmes.
- Isto é apenas um trailer.

Eu quero que você passe suas mãos repletas de gordura pelo meu corpo. Eu quero você completo, com todos os recheios que tenho direito, você me faz ter orgulho dessa profissão mal-cheirosa. Amo seu cheiro, a cebola, o óleo, o perfume barato, o suor. Suas palavras são cheias de ironias, mas vejo algo em seus olhos que parece refletir nos meus. É esta paixão, Luisa, esta vontade de estar ao seu lado em qualquer lugar e lhe beijar com todo meu apetite e sentir seu gosto, al dente. Venha, Pedro, já não sou mais menina nem mulher, sou humana e preciso de você remoendo-se dentro de mim. Estou no ponto, minha cozinheira particular. É hora de prensar nossos corpos, meu consquistadorzinho de meia-tingela, convincente e sincero. Eu não vou pagar. Pague me apenas com seus espasmos. Mais devagar. Mais devagar. Mais devagar. Tempere-me. Cozinhe-me. Frite-me. Agora, me coma.

Pedro abriu o cardápio do trailer de Luisa. Com uma felicidade explícita leu: "Especialidade da Casa: X-Calabresa Com Cebola e Pouca Maionese".