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É a quarta
vez nesta semana que Pedro come um x-calabresa com cebola e pouca maionese.
Há outras razões além da fome das oito horas da noite:
assistir esta menina, de uniforme branco, preparando seu sanduíche
é algo apaixonante. Na segunda-feira, ele apareceu com a namorada
sem graça e chata que odeia gordura, mostarda e ervilhas. Agora,
está a sós com sua princesa de cabelos presos e touca, ela
é toda sua. Com calma e experiência, como se já tivesse
decorado todos os passos para fazer o calabresa, ela move-se dentro do
minúsculo trailer. Corta o pão, passa maionese, catchup,
mostarda, coloca ervilha e um pedaço de alface. Esmaga a calabresa
com sua espátula, frita a cebola, polvilha um tempero cujos ingredientes
fazem parte de um segredo guardado em família. Tem o luxo de até
prestar atenção no noticiário enquanto espera o pão
prensar. Enfim, ela diz: Luisa. Pedro mal consegue dormir nesta noite. Em seus pensamentos parece existir apenas uma palavra- Luisa, Luisa, Luisa. Fecha os olhos e se vê protagonizando um beijo. Dorme sem querer. E acorda com fome, muita fome. - Sei que vai me achar um lunático, um idiota, que vai me odiar para o resto de minha vida. Mas não dá mais. Acabou. Quer dizer, ambos sabemos que as coisas não andam muito bem entre nós. Sei lá, se pelo menos você gostasse de calabresa ou preparasse um x para mim. Não. Esquece. Isso é ridículo. Vamos embora daqui. Este restaurante que você freqüenta me dá náuseas. Como é que alguém pode comer alpiste? Sim, porque isso é alpiste e grama. Não tem tempero, não tem gosto. Não tem gordura. Você nem ao menos bebe um pouco de álcool. Desculpa, não tenho nada contra você. Eu gosto de você. Sei que pareço um louco mas está tudo terminado. Não, não diga nada. Eu sei que não estou bem. Só que também sei o que vai me deixar melhor. E não é essa comida natural. Ah, não. Pedro aproxima-se
do trailer e imediatamente Luisa arruma os fios de cabelo que a touca
não consegue cobrir. Ele percebe e não pode esconder um
sorriso. - Desde a primeira
vez que você foi comer lá no trailer, eu soube. Eu quero que você passe suas mãos repletas de gordura pelo meu corpo. Eu quero você completo, com todos os recheios que tenho direito, você me faz ter orgulho dessa profissão mal-cheirosa. Amo seu cheiro, a cebola, o óleo, o perfume barato, o suor. Suas palavras são cheias de ironias, mas vejo algo em seus olhos que parece refletir nos meus. É esta paixão, Luisa, esta vontade de estar ao seu lado em qualquer lugar e lhe beijar com todo meu apetite e sentir seu gosto, al dente. Venha, Pedro, já não sou mais menina nem mulher, sou humana e preciso de você remoendo-se dentro de mim. Estou no ponto, minha cozinheira particular. É hora de prensar nossos corpos, meu consquistadorzinho de meia-tingela, convincente e sincero. Eu não vou pagar. Pague me apenas com seus espasmos. Mais devagar. Mais devagar. Mais devagar. Tempere-me. Cozinhe-me. Frite-me. Agora, me coma. Pedro abriu o cardápio do trailer de Luisa. Com uma felicidade explícita leu: "Especialidade da Casa: X-Calabresa Com Cebola e Pouca Maionese". |
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